domingo, 8 de fevereiro de 2015

Felizes Para Sempre ? A Minissérie


Felizes para Sempre? poderia ser lembrada pelas curvas e o derrière da estonteante Paolla Oliveira, mas a história contada foi isso e muito mais! O enredo de Felizes não é nada mirabolante, porém, a direção, a escolha do elenco e cenas de tirar o fôlego fizeram desta minissérie uma das melhores dos últimos anos. Tendo Brasília como pano de fundo, quatro casais vivem seus dramas cotidianos emaranhados em corrupção e traição. O quinto elemento da trama é quem vai desestabilizar todos os casais envolvidos: Cláudio/Marília; Hugo/Tânia; Joel/Susana; Dionísio/Norma. 

Dionísio e Norma Drummond são os pais de Cláudio, Hugo e Joel, sendo este, filho adotivo. Os irmãos são casados com mulheres bonitas e bem resolvidas, se bem que Marília incorpora a aura de reprimida, mal-amada, sofredora. Infeliz sexualmente no seu casamento, ela e o marido, o grande empreiteiro corrupto, resolvem contratar uma garota de programa para apimentar a relação morna e claudicante de uma união de 20 anos, que conta com uma tragédia - a perda do filho afogado na piscina da própria casa. Neste cenário mórbido e imbuído de muita dor, aparece a luxuosa profissional do sexo - Danny Bond. 

No desenrolar da trama, vimos Danny/Denise/Simone envolver-se com o casal milionário e também com o irmão mais novo. Sem que um soubesse da traição do outro, uma explosão de sensualidade tomou conta da história com cenas picantes entre Danny e Cláudio, e direito a banho de cachoeira em um paraíso do planalto central. Danny e Marília protagonizaram momentos de extrema sexualidade e delicadeza, o que fez da abordagem homossexual não ser o tema de maior polêmica, mas sim o caráter dúbio da garota de programa. 


Para ligar Danny a Joel, precisamos lembrar do início da série, quando ele, braço direito nas sujeiras de Cláudio, não levou nenhum quinhão da bilionária transação envolvendo a empreiteira e a obra de transposição do Rio São Francisco. Sentindo-se humilhado por Cláudio, que lhe deu apenas uma moto como recompensa do serviço sujo, Joel planeja a derrocada do irmão mais velho, e até cita Pedro Collor. Sempre posando de bom moço, ele não levantou suspeita e assim pôde colocar câmeras no escritório e na suíte do hotel luxuosíssimo, onde Cláudio mantinha seus casos amorosos. Ao saber que o mais velho dos Drummond estava de caso com Danny, tratou de contratá-la também e aí uniu-se o útil ao agradável.

Joel estava com o orgulho bastante ferido. Ele e Susana estavam dispostos a se separarem, mas quando ele descobre que sua mulher já tinha outro, Joel muda de ideia e começa a perseguir o novo casal. Tendo a recusa de Susana e o desprezo de Claudio, o filho adotivo, um clichê bastante comum, decide que vai arrebentar com a vida de todo mundo. E Danny cai na conversa do garoto problema. Ao passar uma noite com Marília, não titubeia e apaga a bela como um potente sonífero para poder fotografar todos os documentos que comprometem Claudio em suas mais espúrias falcatruas com parlamentares do Congresso Nacional. 

O que mais me chocou foi a falta de originalidade do roteiro para justificar a traição de Danny - ter um apartamento no Rio de Janeiro, uma vez que Joel tivesse todas as provas para ferrar o irmão. Uma mulher com tamanho poder de sedução já tinha deixado o milionário com os quatro pneus arriados. O cara prometera comprar seu "passe", dar apartamento, viagem internacional e muito mais do que ela poderia imaginar. Entretanto, ela prefere arriscar tudo isso, acreditando que iria sair safa desta história, e entregar Cláudio, levando Marília junto, uma vez que ela era a laranja da pinacoteca adquirida pelo empreiteiro ambicioso!

Correndo por fora, temos a história dos patriarcas da família Drummond - Dionísio e Norma. Ele, já impotente com sua esposa, reencontra uma namoradinha de infância e consegue reviver o sexo da forma mais adolescente possível. Já Norma, professora universitária, é cantada por um colega da faculdade e fica bastante mexida. Mas não cede aos encantos do moçoilo, com idade para ser seu filho. No final, Dionísio conta sua traição para Norma, que não o perdoa. Desgostoso, ele tem um infarto e morre.  O filho deles, Hugo, é casado com a bem-sucedida médica Tânia. O que ninguém esperava era que a doutora costumava ter vida dupla. O único filho do casal era, na verdade, filho biológico de Cláudio. Tânia se envolve com o dono de uma clínica famosa, mas, vê a derrocada da sua possível ascensão profissional quando, voltando do motel com o médico também casado, impede o homem de salvar a vida de uma mulher que ele havia atropelado. É o começo do fim de Tânia. 

Como Felizes para Sempre? foi uma releitura da não menos famosa série Quem Ama não Mata, de 1982, o público já sabia de antemão que um crime selaria o final da história. E assim foi. Com muita gente apostando na morte de Marília ou de Cláudio, fomos surpreendidos pelo assassinato da Danny Bond. O último capítulo não foi o melhor da minissérie. Todavia não devemos julgá-la apenas pelo seu desfecho. Depois da morte do delegado aposentado, o Dionísio, a história ganha contornos de tragédia anunciada, pois Joel e o advogado de Claudio armaram para que o empreiteiro transferisse 58 milhões de dólares para a conta do caçula. 

Já no cemitério, vimos um Joel transtornadíssimo e ameaçador. Ele não perdoa o fato de Danny não querer passar para ele o dossiê que compromete Marília na compra de várias obras de arte caríssimas. A própria não sabia de nada. Muito ingênua esta Marília. E dessa forma, para conseguir o documento, ele arrasta Danny até o cemitério, conta para a cunhada que Danny havia roubado os documentos da casa de Cláudio para incriminá-lo, deixando a mulher desnorteada. Não satisfeito, o rebelde sem causa envia para os celulares de Cláudio e Marília as cenas de sexo que ambos tiveram com Denise. Chocados e transtornados com a recém-descoberta de traição com via de mão dupla, ambos pegam uma arma e vão em direção ao carro onde Joel e Danny discutem. 

A garota de programa agora arrependida e não querendo prejudicar Marília, ameaça Joel com uma arma. Na confusão ouve-se um tiro e o vidro do lado do motorista com um buraco de bala. Danny estava morta. Marília aproxima-se do corpo caído no chão e em seguida chega Cláudio. Ele mira a arma para a cabeça da esposa, mas não consegue puxar o gatilho. Joel sai em disparada com o dossiê na mão e policiais aparecem de todos os lados, já que era o funeral de um ex-delegado, e conduzem o casal para suas viaturas. 

No twitter, vários internautas se perguntavam - "Quem matou Danny Bond?". Eis a pergunta que não quer calar. Na minha opinião, quem matou Denise foi a Marília. Revendo a cena várias vezes, fica claro que o tiro veio do lado oposto onde Denise estava sentada. Ou seja, veio do lado do Joel. Ele se assusta com o estampido e olha para a direita, conseguindo ver o atirador. Então, pega o dossiê e sai correndo. Segue a cena com Marília circulando o carro para ver Danny estendida no chão. Sua fisionomia era botóxica! Não mexeu um músculo. Apenas confirmou a tragédia - sua amada estava morta. Sim, Marília não tem perfil de assassina e por isso mesmo parecia ilógico que ela cometesse um crime passional. Marília amou verdadeiramente Danny Bond. Ela foi se entregando aos poucos, com muita sutileza e certo pudor. Marília acreditava piamente em Denise. Até o último momento, antes de partir para as vias de fato, ela ainda acreditou quando Danny mentiu dizendo que não era amante de Cláudio. 

E Cláudio, como não amava ninguém a não ser ele mesmo, até tentou disparar um tiro contra sue esposa, jogada de joelhos ao corpo de sua querida Denise. Só que Cláudio é um fraco, um bobão que se achava esperto. Foi pego no esquema de corrupção por ter subestimado seu irmão adotivo. Joel até cantou a pedra em um dos capítulos com a frase "Imagina se o Hugo dá uma de Pedro Collor e entrega o irmão". Joel estava falando de si mesmo... E Cláudio não se tocou. Egocêntrico ao extremo, subjugou a inteligência das pessoas em sua volta. Um corrupto não tem amigos. Tem urubus que o rodeiam esperando para lascar o bico na carniça. Cláudio e sua escrotidão, falta de escrúpulos e por se achar o Brad Pitt de Brasília, não se deu conta de que estava sendo usado e manipulado o tempo todo. Inclusive pela amante detetive - a Bond! Aquela que infiltrou em sua casa, vasculhou seus pertences e deu sua cabeça de bandeja para o problemático menino adotado. Cláudio não conseguiu disparar o tiro na esposa porque ele não a amava... Amava apenas a si mesmo. Era incapaz de sair de si. Um homem frio, como um autocontrole invejável, iria se sujar matando uma garota de programa, ou como disse Marília - um pedaço de carne que se compra pela internet?

Se quem ama não mata era a afirmativa da série original, esta releitura contradiz a frase, pois Marília amava Denise. Ela era ingênua demais e acreditou no amor, nas palavras sedutoras de Danny. Penso que Marília matou Danny não por ciúme dela com Cláudio, mas por tê-la traído em suas esperanças... Marília morreu junto com Danny e Denise foi a primeira a "matar" Danny. Fico a pensar que Denise não sobreviveria sem sua personagem e que Marília sucumbiria à falta desta mulher avassaladora! Mas o amor é traiçoeiro e o tiro saiu pela culatra - na ficção, pelo menos,  quem ama, mata!