quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ilha do Medo - Shutter Island

O feriadão já foi, mas não posso deixar de indicar alguns filmes aos quais tive oportunidade de assistir nos últimos dias. Indico, para quem gosta de suspense, "A Órfã" (advertência: contém cenas chocantes), "A Ilha do Medo" e "A Troca". Dos três citados, quero deixar um comentário sobre o segundo, pois me intrigou tanto que passei a "fita" três vezes. É o tipo de filme que você tem que ver de novo, pois tudo se explica na reprise. Para quem desejar locar o DVD, não leia o comentário, pois o final do filme será contado. Mas, se quiser apenas saber sobre o tema e o desenrolar da história, vá em frente.



SPOILER


No início da década de 50, no período pós-guerra, o então ex-combatente Teddy Daniels, vivido por Leonardo Di Caprio, encontra-se em um navio rumo a uma ilha, onde fica um hospital psiquiátrico montado para tratar os pacientes de maior periculosidade dos Estados Unidos. A cena do navio já dá dicas preciosas que poderão ser associadas no desenrolar da trama. O delegado federal demonstra fobia à água... Ele tem um companheiro de investigação, ao qual chama de Chuck.

Teddy e Chuck chegam a Shutter Island para investigarem o sumiço de uma paciente que, anos atrás afogara seus três filhos num lago, mas negava tal fato, por insanidade, e fazia de conta que a Ashville era sua casa, pacientes e médicos, seus vizinhos. O misterioso desaparecimento da assassina é o fio da meada para o grande mistério que envolve os personagens da Ilha do Medo. Rachel Solando aparentemente fugiu com a ajuda de algum habitante local. Teddy começa a investigar os outros pacientes e a levantar suspeitas de conspiração.

Seus métodos investigativos se confundem com sua história vivida no campo de concentração, onde participou da libertação dos judeus, e também por culpar-se de ter matado vários soldados nazistas. Esses recortes de flashbacks se confundem com a realidade do hospício e faz com que o espectador se pergunte o que é real e o que é loucura.

Seguindo esta linha conspiratória, com o roteiro recheado de pistas falsas, passamos a fazer parte de todo aquele aparato psiquiátrico, confundindo-nos com os próprios pacientes. Ao ser questionado pelo médico sobre quem o teria criado, Daniels responde: pelos lobos. Lobos, o animal interno que alimentava; lobotomia, método usado para pacificar os loucos, através de cirurgia cerebral. Dicas, fatos. A violência antes latente no delegado vivido por DiCaprio, começa a  ficar evidente e forte demais. A charada proposta por Rachel Solando: "a lei dos 4, quem é o 67º?", a tempestade, os devaneios e as alas psiquiátricas formam um labirinto na mente do perturbado Teddy. Na ala A, ficavam as mulheres, na B, os homens e na C os pacientes mais perigosos. A ala C era um forte construído durante a primeira guerra. Dá para imaginar o tipo de gente que ficava preso naquele lugar. Daniels tinha obsessão, especificamente, por um dos pacientes da ala C: Leaddies, o homem que "riscou o fósforo" e incendiou o prédio onde sua esposa morava. Leaddies estava preso na ilha e Teddy tentava achá-lo obstinadamente, para um acerto de contas.

O desfecho se dá no farol da ilha, a princípio tido como um lugar para tratamento de esgoto, mas que Teddy imaginava ser o local onde as cirurgias cerebrais eram realizadas. Ele invade o farol e encontra o médico sentado atrás da mesa e sem nenhum vestígio  de barbáries. Começa um confronto  de realidades, confundindo a quem assiste. O médico revela ao então paciente 67, Andrew Leaddies, que ele estava ali há dois anos por não suportar  a verdade nua e crua: matara sua mulher após descobrir que ela havia afogados seus três filhos.

Neste momento eu entrei em êxtase, pois, por mais que o filme desse pistas, jamais imaginaria que ele fosse o marido de Rachel Solando. Aliás, a lei dos 4 se explica aí: Edward Daniels - Andrew Laddies/ Rachel Solando - Chanal Dolores. Quatro nomes, dois verdadeiros e dois anagramas. Teddy achava que seu nome era Edward, mas na verdade ele misturou as letras e formou uma nova identidade, assim como fez com o nome de sua esposa. Nunca existiu Rachel Solando, a não ser na fantasia de Teddy/Andrew. Rachel era o nome da filhinha dele que morreu afogada. Ele sempre a via nos seus delírios como sendo uma criança judia que não conseguira salvar. Dolores era uma mulher depressiva. "Teddy" ignorava esses sintomas, pois se tornara um alcóolatra. Ao ver os filhos mortos e sua mulher implorando para que ele a libertasse daquela vida, não teve dúvidas - atirou em Dolores. A dor de Andrew com toda esta perda o levou à loucura.

Encaminhado para a ilha de Ashville, foi o paciente mais intratável, mais violento e desafiador. A direção de Shutter Island determinou que uma lobotomia fosse feita imediatamente, mas seu psiquiatra queria uma última tentativa - deixar Andrew Leaddies solto por dois dias vivenciando sua fantasia, apoiado por todos que lá moravam. Pacientes, assistentes e policiais, além dos médicos, armaram uma encenação para que Andrew pudesse voltar à realidade e se tornar uma pessoa tratável. Só que não estava dando certo e o dr. Collen precisou falar a verdade (?) e mostrar as fotos de seus filhos mortos. O choque fez com que Andrew recobrasse sua memória, o que sinalizava positivamente para a cura.

Mas... no dia seguinte, quando poderia voltar para o continente e ter um tratamento mais humano, Andrew surpreende ao dizer que precisava desmascarar a todos na ilha. Seu companheiro Chuck, na verdade seu psiquiatra assistente, sinalizou para os demais que "Teddy" havia voltado e não seria possível a viagem de volta. Andrew, então, indaga ao seu companheiro/médico: "É melhor viver como um monstro ou morrer como herói? Na sequência, sai caminhando em direção aos enfermeiros que já o aguardavam devidamente parementados para a lobotomia, sem esboçar nenhuma resistência. A câmera focaliza o farol, dando a entender que ele passaria pelo procedimento. E assim termina o filme.

Pois é, o que seria realidade e fantasia? Estaria Andrew acenando uma falsa regressão para ser lobotomizado e viver como um zumbi ou de fato ele não suportava a verdade e havia regredido? Fica a dúvida, sempre pertinente aos bons filmes de suspense. Se alguém que está lendo tiver visto, faça um comentário. Quem sabe possamos debater algumas ideias sobre o assunto?

Pontos a esclarecer: um delegado federal usaria uma gravata que mais parecia enfeite de palhaço? O que era o ferimento que ele trazia na testa: machucou-se durante a briga em que quase matou o paciente da ala C, ou uma tática do Scorcese, insinuando que naquele lugar ele sofreria uma intervenção cirúrgica - o lobo frontal? Os vômitos e náuseas não eram sintomas de enxaqueca, mas as crises de abstinência, uma vez que seus remédios estavam sendo suprimidos para o grande teste? A tempestade nunca existiu, a não ser de forma metafórica, indicando os clarões momentos de lucidez do paciente e não raios provenientes da chuva? A caverna em que ele dormiu significa o inconsciente humano? A foto de Hitler na casa do médico era para causar impacto e fazê-lo lembrar de seus traumas da guerra contra os nazistas? Fogo e água, dois elementos da natureza, se contrapõem o tempo todo. O fogo que matou Dolores não foi provocado por um incêncio, mas pela sua arma de "fogo". A chuva persistente na maior parte do filme fazia alusão à forma em que seus filhos morreram - morreram na água. A fobia sentida no navio foi proposital, um modo de remetê-lo ao seu passado sombrio. Teddy comentou com o soldado que seus homens estavam tensos (evidentemente, estavam diante do paciente mais perigoso da ilha); reconheceu o perímetro eletrificado (claro, ele morava na ilha), mas deu a enteder que se tratava do campo de concentração. Enfim, símbolos existem aos montes. Diálogos que passam desapercebidos: A loucura é contagiosa? (sim, a loucura de sua mulher o contagiou); você tem mecanismos de defesas magníficos! (sim, ele negava a realidade através da loucura); Quem criou você? - Os lobos! (Ah, a lobotomia, o monstro que vivia dentro dele); A violência é um presente de Deus, você é violento e eu te conheço há séculos (conversando com o xerife, ao subir o penhasco). Todos estavam a postos nos lugares em que Teddy provavelmente se encontrava. Só vemos isso depois, com calma. Na hora, a confusão do roteiro, te faz crer que você também é um louco daquela Ilha do Medo. 

Por Christiane B.