quinta-feira, 21 de junho de 2012

Branca de Neve e o Caçador


A Branca de Neve é uma tonta, irritante na sua bobice. A figura que me comove por sua tragédia é a Madrasta. Se eu pudesse, mudava o nome da estória de Branca de Neve e os sete anões para A Madrasta e o espelho. Branca de Neve é tonta e boba por não haver se olhado no espelho - se olhou, não percebeu o fascínio e o terror que moram nele. Se gosto mais da Madrasta é precisamente por isto, porque tenho longas conversas com o meu espelho - com os meus espelhos, pois são muitos.


Foi com esse parágrafo que Rubem Alves começou sua crônica "subversiva" sobre o fascínio ou o medo que os espelhos podem causar. Nunca havia lido antes alguém que falasse bem da Madrasta, Rubem Alves foi o primeiro. A partir de então, comecei a analisar o famoso conto de fadas perpetuado pelos Irmãos Grimm. Não me simpatizo pela maldade, pela inveja e pela crueldade da Rainha. Mas entendo que Rubem Alves estava exaltando outra característica desta controversa personagem - sua coragem. Coragem de enxergar a si própria, de se reconhecer como o lado obscuro da razão. 


O longa metragem que está em cartaz - Branca de Neve e o Caçador -, deixaria meu autor preferido meio decepcionado. A Madrasta continua linda, exuberante, cruel e má em uma digna atuação da belíssima Charlize Teron. Contudo, a sempre linda e eterna vampira Kristen Stewart deu um show como a princesa dos lábios vermelhos como a rosa! Esqueça aquela palidez da personagem Bella. Kristen é a heroína de fato e de direito deste filme baseado no folclore germânico. 

A princesinha maltratada pela rainha Ravenna consegue se ver livre da prisão - em todos os seus sentidos - e mergulha na escuridão da Floresta Negra para enfrentar seus medos e escapar da morte. Entretanto, nesta nova versão do conto, o caçador roubou a cena do insosso príncipe e seu cavalo branco. O ator Christopher Hemsworth (Thor), meio genérico de Brad Pitt, não menos lindo porém, deu vida a um personagem que inicialmente sempre foi secundário na história e tornou-se, neste longa, parte do título do filme! Foi uma ascensão e tanto! O príncipe lindinho Sam Clafin fez a sua parte da melhor maneira que pôde, mas ele não é o herói da história... E nem mesmo personagem- título.



Recheado de licenças poéticas, o diretor Rupert Sanders colocou oito, ao invés de sete anões! Nenhuma casinha linda no meio da floresta, caminhas minúsculas e vasilhames para lavar. A surpresa deste núcleo fica por conta do maravilhoso "momento Disney" em cenas de um bosque deslumbrante, sem deixar de contar a paixão platônica de um dos homenzinhos pela linda princesa. Sanders também explorou bastante o contraste entre o branco e o preto, as luzes e as trevas, a maldade que habita na escuridão versus a bondade emanada da pureza de sentimentos nobres. A cada um coube representar o feio e o bonito, o bem e o mal, a luz e a treva... A Branca de Neve de Kristen Stewart em alguns momentos aparece tão linda que convence os espectadores de que sempre foi a princesa do nosso imaginário. Já Charlize Teron faz jus ao que pensa Rubem Alves sobre a Madrasta!

Citação extraída do livro O Retorno e Terno, de Rubem Alves