quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dia a Dia

Arraial do Cabo / RJ - Outubro de 2013
De uns tempos pra cá não tenho conseguido inspiração para escrever. Na maioria das vezes, ouço músicas. E quando a música adentra em meus ouvidos, nada mais consigo fazer. O pensar inexiste. Somente viajo... Também há outros motivos que têm onerado meus pensamentos e os colocado sob um solo infértil. Das dores físicas posso citar, como um exemplo, uma recente tendinite no ombro direito. Como sou destra, a enfermidade me incapacita de ficar teclando amiúde. Acredito que somente as dores emocionais são propulsoras e estimulantes. Dores ou calores... Em estado de fortes emoções costumam sair textos preciosos, genuínos, doces ou atrozes, mansos ou ferozes...

A rotina é o meu foco. Eu não gosto de sair da rotina. Deitar e levantar no mesmo horário para mim é algo que faz meu dia render bastante. Qualquer imprevisto me faz perder o eixo, me desequilibra. Por vinte dias terei de fazer sessões de fisioterapia. Aí já vai a minha manhã inteira. A manhã é uma parte do dia importantíssima na minha rotina. Eu escolhi trabalhar à tarde porque sou insone. Mesmo se eu me deitar cedo, não durmo antes de meia-noite. A cada ano que passa, a insônia vai se intensificando e para um futuro ali bem perto, algo me diz que serei notívaga. Odeio acordar cedo! Me tira do sério as vezes que preciso fazer isso. Voltando à fisioterapia, digo que a minha parte matutina está lascada. Na metade. Então é aquela correria para chegar a tempo na escola.

Com dores lancinantes no ombro que se estende por todo o braço, tornei-me ambidestra - agora aprendi a escrever na lousa com a mão esquerda. Os alunos ajudam, mas, a responsabilidade é minha. Dirigir por muito tempo também aumenta a dor. Parei com a academia, acho que estava fazendo exercícios erradamente. E isso contribuiu para as fissuras no tendão. Disse o ortopedista que, mais um pouco, e a lesão seria a tal ponto de rompê-lo. Dói só de pensar. E as crises de enxaqueca já se estendem por quase três meses...

Tenho andado distraída, impaciente e indecisa. Ah, Renato Russo e suas letras colocadas em nossas bocas. A gente pensa, ele tem uma frase para explicar. As músicas da Legião Urbana são tão lindas assim porque Renato era depressivo. Quando escreveu "Índios", em um quarto de hospital, após ter cortado os pulsos (eu quis o perigo e até sangrei sozinho) por conta de uma decepção amorosa, ele abriu um leque imenso de interpretações. A canção não é uma homenagem aos índios. Ele faz metáforas de como fora enganado pelo seu amor (quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro que entreguei a quem conseguiu me convencer que era prova de amizade) e daí saiu essa pérola do nosso cancioneiro. Acho que ultimamente estou me sentindo como uma frase da música - eu tento chorar mas não consigo. 

Isso traduz uma certa tranquilidade pela qual minha vida está passando. Para as dores do corpo - analgésicos. Para as dores da alma - o tempo é o melhor remédio. E assim prossigo, lentamente escrevendo, estudando, trabalhando. Intensamente rezando, pedindo e acreditando. Porque no dia em que eu desacreditar dos meus sonhos, nada mais irá interessar. Nem ler, escrever, trabalhar. A vida segue seu curso. O mundo não para por nossa causa - nem por mim nem por você. Difícil entender isso, aceitar. Todavia, já que o tempo não para, daqui a uns anos "de tarde quero descansar, chegar até a praia e ver se o vento ainda está forte e vai ser bom subir nas pedras... " 

Eu sou um vento no litoral!