quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O Bem Amado

Vi e gostei da releitura do filme O Bem Amado, de Guel Arraes, o mesmo que dirigiu O Auto da Compadecida, Lisbela e o Prisioneiro, Romance, dentre outros. Baseada na obra de Alfredo Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos do Brasil, o filme de Arraes traz excelentes momentos que misturam inteligência "vocabulística" e o retrato político atualizadíssimo de Sucupira/Terra Brasilis.

Marco Nanini em nada deixou a desejar atuando como o prefeito tresloucado e "neológico" - Odorico Paraguaçu - defendido por Paulo Gracindo na primeira versão. Os diálogos são velozes e eloquentes, o que dá um ritmo frenético à trama, levando o público a muitas gargalhadas. Também compõem o enredo grandes nomes da TV e do cinema nacional: José Wilker, Zezé Polessa, Drica Moraes e Andrea Beltrao, como as irmãs Cajazeiras, e Matheus Nachtergaele como o antológico Dirceu Borboleta.

Revirei o google para achar algumas frases memoráveis e inesquecíveis proferidas pelo prefeito sucupirano:

-Sou de uma palavra só, não sou bi-vocabular.

-Bifacial: um indivíduo de duas caras.

-Estou aqui, com a alma lavada e enxaguada de indignação por esse atentado covardista e crapulento! Diante do assassinato deste prefeito memorável, deste político relembrável, deste cidadão inolvidável o povo tem sede de justiça, de paz...

- Seus ateístas despenitentes! Vocês não respeitam nem um homem morto?

- Se defunto votasse, o coveiro já estaria eleito!

- Vexame para o nosso prefeito, agora em estado de defuntice compulsória, ter que andar três léguas para ser enterrado.

- Povo de Sucupira, meus conterrâneos: vim de branco para ser mais claro. Se eleito nas próximas eleições, meu primeiro ato como prefeito será o de cumprir o funéreo dever de mandar fazer o construimento do cemitério municipal.

- Meus conterrâneos! Tomo posse como prefeito desta cidade com as mãos limpas e o coração nu, despido estripitisicamente de qualquer ambição de glória. Nesta hora exorbitante, neste momento extrapolante eu alço os olhos para o meu destino e, vendo no céu a cruz de estrelas que nos protege, peço a Deus que olhe para nossa terra e abençoe a brava gente de Sucupira.

- Calunismos. Eu também sou meio socialista. Não da ponta esquerda... do meio de campo, caindo pra direita!

-O senhor não vai matar, vai suicidar o homem apenasmente.

-Pare com esse perguntório e essa cara de disenteria. Temos é que tratar dos providenciamentos inauguratícios do cemitério.


-Como é sabido de Vossas Senhoricências, infelizmentemente, temos aguardar que algum evento malditoloso, leve do seio da terra sucupirana, um de seus amadorosos filhos.
-Vai ter uma confabulância político-sigilista sobre as nossas candidaturas.