quarta-feira, 15 de maio de 2013

Salve Jorge



A teledramaturgia global já não é mais a mesma. Desde que mudaram o "conceito" de fazer novela a partir da mistura ficção-realidade e função social, como por exemplo, mostrar a vida de quem vive no lixão, eu, noveleira assumida, perdi a graça de assistir. Avenida Brasil foi um fenômeno há muitos anos não visto, mas aquela história contextualizada na base do ódio, vingança, traição, poligamia, luxo e lixo me embrulha o estômago. A mídia eleva Avenida Brasil ao nível de um texto de Janete Clair, Dias Gomes, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes, Gilberto Braga e por aí vai. João Emanuel Carneiro escreveu somente uma novela  que gostei - Cobras e Lagartos. Já em A Favorita, não o achei brilhante e o seu último mega-sucesso, foi, para mim, abominável. Bem, sei que sou exceção. É um tal de falar que "estamos" órfãos de Carminha e de Tufão. Órfãos de personagens de novela? E de Avenida Brasil? Credo, gosto não se discute, lamenta-se. 

Em contrapartida, vibrei com Cheias de Charme, fiquei encantada com a alegria e do aspecto fantasioso que é a função de uma novela - entretenimento. Há de se ter uma boa dose de comédia, bons atores, enredo crível., leveza. Fiquei penalizada com o remake de Guerra dos Sexos! Em nada lembrou aquela novela lindíssima de trinta anos atrás! Em nada. Somente sobraram os talentos de Tony Ramos e Irene Ravache. Os demais, um fiasco. Até as releituras das músicas da primeira versão foram pífias. Em 1983, o long play  internacional de Guerra dos Sexos era um dos mais bonitos! Até hoje me lembro das músicas: "Words don't came easy to me..." O que foi a regravação de "Anjo", do grupo Roupa Nova? Nunca vi nada mais patético. Patética também foi a participação da mãe de Jorge Fernando com eu apito insuportável... E a insuportável Luana Piovani. Agora entrou uma tal de Flor do Caribe, ambientada no nordeste, com protagonistas loiros de olhos azuis, "genuinamente" nordestinos, dá para acreditar? E ainda ter Grazi Massafera como protagonista, aí já é demais! Resumo desta história? Tema central de "O conde de Monte Cristo" e remake de "Tropicaliente". Só.

Eu fiz todo esse prólogo para chegar em Salve Jorge! Perdi amigos no facebook por causa do título da novela. Os protestantes começaram a ridicularizar o santo São Jorge, dizendo que era o capeta entrando na casa das pessoas pela televisão. Veja se pode uma coisa dessa! Eu não tenho paciência pra isso e nem papas na língua. Não mesmo. A gente pode pensar muita coisa, mas falar não. Ando cansadíssima deste discurso neo-pentecostal que vê o demônio em tudo: nos santos, nas músicas, nos homossexuais, jornais, à moda Marco Feliciano. Uma chatice de dar nojo e embrulhar o estômago. Sou devota de São Jorge, a paróquia que eu frequento perto da minha casa é Paróquia São Jorge, a única em Minas Gerais dedicada a ele. Os cariocas têm verdadeira adoração por São Jorge, muitos cantores, artistas e pessoas comuns têm o nome de Jorge. É da cultura deles. E Glória Perez, apesar de ser acriana, carioquíssima de coração, quis mostrar uma história passada na Capadócia, berço do santo. O título de sua trama o homenageia, utilizando-se de uma saudação. A novela em nada lembra a história de São Jorge. 


Presença de Helô

Salve Jorge! não teria se salvado caso Giovanna Antonelli não tivesse roubado a cena. Protagonizou bonito, roubou o papel da chorosa e sofrida Morena. Por que mocinhas têm que ser chatas? A garota até que tem um certo talento, mas não ainda para papel principal. E aí é que entra a delegada Helô, ela caiu no gosto do público, está lindíssima, segura, brilhante. Antonelli ofuscou todo o elenco feminino da novela. Nem mesmo a toda poderosa Lívia Marini conseguiu agradar o público, tamanho o  ar blasé na interpretação forçada para uma atriz tipicamente cômica. Depois de Giovanna, a personagem de Totia Meireles, antagonista e vilã, foi muito bem desenvolvida pela atriz, que tirou de Cláudia Raia o título "malvadeza do ano". O ator que representa o Russo é de longe o personagem masculino principal da trama. Rodrigo Lombardi, com toda aquela beleza de capitão do exército, simplesmente não decolou. Ficou chato, chateo! Inseguro, trocou de namorada várias vezes e, por erro da autora, o diminuiu na novela afastando-o do seu par romântico, que ficou muito tempo no núcleo da Turquia. Não é possível haver química entre protagonistas que ficam separados a novela inteira. A distância separa aqueles que amam...

E o que dizer de Zyah! Além de ser um homem de uma beleza ímpar, excêntrica, ele é de um talento incrível! Eu o chamei de Capitão Caverna. Capitão em referência ao personagem Herculano, de Cordel Encantado e a caverna pelo lugar onde morava, na Capadócia. Domingos Montagner e Cleo Pires soltaram faíscas em cenas tórridas. Por algum tempo formaram o principal par romântico de Salve Jorge! Mas,  devido a algum motivo obscuro, foram separados e aí ficaram em segundo plano, dando espaço para Helô e Stênio. Uma novela com excelentes atores de personagens fracos, apagados, vide Antônio Calloni, Natália do Vale, Dalton Vigh, Stênio Garcia, Nicete Bruno, Nívea Maria, dentre outros. Mas o que valeu mesmo foi o núcleo do Alemão. Eu rolei de rir com o "Percoço" e a Maria Vanúbia. Sensacionais! Foi o grupo mais divertido da novela, com as periguetes do morro, a malandragem, os trabalhadores, comerciantes e até um nordestino arretado que brigava com todo mundo.



Espero que Glória Perez não faça mais novelas com dupla nacionalidade. A parte da Turquia foi muito chata. Com exceção da beleza do lugar, até os personagens eram chatos. Não acredito que Salve Jorge! vá entrar no hall das melhores novelas dos últimos tempos, como foram Caminho das Índias, Insensato Coração, Fina Estampa, Cordel Encantado, Cheias de Charme e Avenida Brasil. De tudo que se vê na telinha, eu ainda gosto de ver novela, agora bem menos, antes eu acostumava acompanhar todas. À medida que estou envelhecendo, tenho dado prioridade a outras coisas, quase não me prendo à televisão. A internet me absorve grande parte do dia, separo um tempo para leituras, ouvir músicas, escrever ou, simplesmente, não fazer nada. Será a vida imitando a arte ou a arte imitando a vida? E Salve, Jorge!