domingo, 8 de junho de 2014

Desencantamentos

''Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são burros demais para perceber que não estou mais ali. ''

Charles Bukowski


Eu me encanto, tu te encantas, eles me desencantam... Ah, verbo capcioso! Um prefixo apenas e o anel que era vidro se quebrou! É tão simples e fácil gostar de alguém, se tornar um admirador, encontrar afinidades, criar expectativas de amizade. Sou fácil de me apegar às pessoas. Até que me provem o contrário, todo mundo pra mim é bom. Às vezes me pego tomando uma confiança em alguém que conheço pouco. Basta ter simpatia e um certo olhar de bondade. Sei também que ninguém traz estrela na testa e, quantas vezes eu já quebrei a cara por gostar e confiar em pessoas erradas. Mas eu não as culpo. Eu as absolvo das decepções que me causaram. Mania idiota essa minha de achar que os outros fariam por mim o que eu faria por eles. Mário Quintana tem um poema magnífico para traduzir esse sentimento de desencanto: "Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho/eles passarão/eu passarinho." 

Sim, liberdade! Pássaro sem gaiola; amor sem prisão; amizade sem traição; um basta na decepção! Se aqueles dizentes do adágio - "você só se decepciona com que você gosta"- estão corretos, por que a gente ainda insiste com gente que não presta,  não vale uma ruga de expressão? Pra isso Cazuza tem a frase: "Tem coisa que eu deixo passar. Não vale a pena. Tem gente que não vale a dor de cabeça. Tem coisa que não vale uma gastrite nervosa. Entende isso? Não vale. Não vale dor alguma, sacrifício algum." Eu não sei se sou ingênua demais ou se as pessoas são falsas demais. Porque sou daquelas de falar com os olhos. Nem é preciso abrir a boca. Meus olhos têm oralidade! E meus lábios são uma calamidade! Porque eles são inquietos. São inquietos no sorriso, na boca escancarada das deliciosas gargalhadas, todavia eles conseguem ser navalhas! Eles vão desde a ternura de um verbete adocicado até o mais cortante e afiado vernáculo. Neste momento, alguém que esteja lendo isso, poderá estar sendo catapultado ao mar da decepção. Quem, de verdade, conhece os nossos direitos e os nosso avessos?

Não, não vim fazer uma auto-promoção. Nem tampouco posar de vítima da vida. Somos vítimas das nossas escolhas. Já escolhi confiar e me dei mal. Já gostei e descobri que era menosprezada. Já engoli sapos e cuspi veneno de cobra. Já decepcionei pessoas e tive uma mão estendida pra mim. Não vim falar de perfeição e de como sou sofrida. Jamais! Eu sou feliz! Eu sei amar, eu sei perdoar, todavia, não sei esquecer o mal que me fazem. Sou cercada de gente maravilhosa - tenho um marido excepcional, filhos adoráveis! E muitas pessoas também que são do bem. Eu tô fugindo de gente chata, complicada, problemática, que te usa quando precisa e depois te descarta. Gente doente da alma. Pra esse tipo posso oferecer minha amizade, mas a cura é pessoal e o caminho é solitário. Para concluir esse meu desencantamento, vou citar Renato Russo musicando a letra dos versos do 14 Bis:

"Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar. "

Não sabem e nunca saberão!