terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Enem e a Direitopatia

Não gosta de mim? Morre que passa!

Simone de Beauvoir
O Enem 2015 foi considerado pelos mais renomados educadores do país como um dos melhores, senão o melhor de todos os tempos. Tive o privilégio de fazer parte do grupo que participou das provas deste Enem. Isso mesmo, neste ano eu tomei a iniciativa de participar do concurso. A minha intenção não é a de passar, longe disso. Não me preparei, não peguei em um livro. Mas estava interessada em fazer a redação, testar meu poder de dissertar, argumentar, discorrer. 

Para a minha agradável surpresa, estive diante de uma prova primorosa, muito bem elaborada, de altíssimo nível. Um exame, de fato, para selecionar os melhores. Não haverá chances para os medíocres, para os de mente fechada, para os preconceituosos e, óbvio, para os despreparados!

Junto com os meus dois filhos, me aventurei neste processo de seleção considerado o maior do planeta, mas tão ignorado pela mídia, quase pé de página nos noticiários. Dão mesmo é importância para os que chegam atrasados. Ou então, como pude ler mais tarde, polemizam as questões elevando-as ao nível político-partidário. 

O ex-secretário de segurança do Paraná escreveu em sua página, que o Enem 2015 foi uma prova petista. Não fosse a seriedade desta acusação, eu teria caído na gargalhada. E depois disso pipocaram nas redes sociais os mais diversos tipos de piadas grotescas de pessoas que nem lá estiveram e que se acham no direito de dar palpite e saírem compartilhando asneiras no seus Facebook's da vida! É a ignorância seletiva dos direitopatas!

Acho que acabei de criar um neologismo. Sim, porque esquerdopatas eu já li várias vezes, mas quando se trata dos seguidores da "social democracia", não vi ainda palavra alguma equivalente à doença instalada nos seus psicóticos seguidores! 

Conheço um par de gente que adora abrir a boca para dizer que não são homofóbicas, que respeitam os direitos dos homossexuais e da comunidade LGBT. Contudo, na questão sobre uma citação de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, torna-se mulher", choveram as mais duras críticas à feminista francesa! Na minha compreensão, Simone não estava promovendo nenhuma campanha do tipo: seja gay! A ilustre autora referia-se, obviamente, à construção do feminino. O gênero é muito diferente do sexo biológico. Mas aí, meu caro, é preciso leitura de mundo! Gente fechada na casinha jamais irá compreender a profundidade das palavras desta mulher de vanguarda! 

Sobre essa gentinha hipócrita que arrota preconceitos sobre Simone de Beauvoir, tenho um conselho: não viagem para Paris! Ou para nenhum lugar da França! Porque Paris é a cidade luz não por ter a Torre Eiffel iluminada (como pensam os ignorantes), mas porque foi o berço do iluminismo - das novas ideias! E tem mais! Acusaram as questões de serem esquerdistas porque abordaram temas polêmicos, como a cultura indígena, o estado laico (teve concorrente que se negou a fazer a questão da "macumba", como foi chamada... 'risos'), a construção da igualdade de gêneros, sobre o povo nordestino e a valorização da linguagem regional e, para fechar com chave de ouro, um tema espetacular de redação: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira.

Ah, neste momento eu abri um sorriso de orelha a orelha! Que grande sacada! Como terá sido a redação dos machistinhas de plantão? Os machistas homens e as machistas mulheres - para mim, as piores. Será que xingaram a Dilma de vaca? Porque isso é violência moral! Será que disseram que 'um tapinha não dói'? Ou, quem sabe, recomendaram que mulher precisa de rola (imitando Ricardo Boechat, o mito)? Lembraram-se dizer que o útero é laico? Que a mulher faz dele o que bem entender? Que cada mulher tem o direito de apropriar-se do seu corpo do modo que bem quiser? Que o Eduardo Cunha está com um projeto que obriga uma mulher que sofre estupro a passar por exames médicos para comprovar o abuso? Hum... Será? 

Quando o resultado das provas saírem, vou postar a minha redação! E também divulgar a minha nota. Não espero muito, eu já alcancei o que queria - participar deste evento nacional de magnitude ímpar! Já dei a minha contribuição. O importante mesmo é que meus filhos passem. Eles estão começando a vida! Eu, já de meia idade, estou na vida para entrar na brincadeira! Eu penso fora da casinha... Eu não sou uma esquerdopata! Eu sou uma mulher que de fato convive e respeita as diferenças. O resto, bem... Ao resto resta o Facebook! Só lamento!