segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Samba do Avião


Veja se você consegue imaginar a cena: entrar em uma aeronave onde os assentos são livres. Encontrar dois assentos disponíveis na terceira fileira, um deles sendo o da janela. Pedir licença ao passageiro que está sentado na poltrona do corredor e ele se mostrar super gentil, levantar-se e deixar você passar. Você ficar observando o mesmo passageiro por ter a impressão de conhecê-lo de algum lugar... Não aguentar de curiosidade e perguntar ao homem, que estava folheando uma revista semanal, se ele era colunista. Ver nos olhos desse mesmo homem um ar de incredulidade pelo teor da pergunta. Ele responder que não é colunista nem jornalista e nem escritor. E você tendo certeza de que o tal sujeito era da mídia... Ver se aproximar uma passageira que chega e cumprimenta o homem pelo conjunto de sua obra... musical! Neste momento você liga a tecla on do seu cérebro de massa esverdeada, porque a cinzenta deu lodo, e faz uma conexão tico e teco, lé com cré e se dá conta que o tal passageiro era, na verdade, ninguém mais ninguém menos do que o cantor e compositor Edu Lobo! Você não sabe se pede pra sair da aeronave que ainda estava em solo, se escorrega e se esconde debaixo da poltrona ou se fica com a cabeça virada pra janela até desembarcar no Rio de Janeiro. Lembra-se de que Edu Lobo fizera um show no dia anterior em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, e que iria no tal show, tendo sido impedida porque no mesmo dia aconteceria o baile de formatura da sua irmã. Então você olha pra ele, sentado lendo revista Época, cutuca-lhe o braço e diz: Edu Lobo, me desculpe! Neste momento ele dá um risinho de "Pô, até que enfim essa maluca se deu conta de quem eu sou." Mas por que cargas d'água ele não disse quem era quando perguntado se colunista? Talvez por ter achado um desaforo não ter sido reconhecido de primeira. Logo ele, parceiro dos maiores nomes da MPB, como  Chico Buarque, João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Remanescente da Bossa Nova, autor de Upa, Neguinho!, Trenzinho do Caipira, Arrastão, esse, um grande sucesso na voz de Elis Regina. Daí seu cérebro começa a fazer conexões e você se lembra de mandar um torpedo para a sua amiga que havia ido ao show para contar a ela da sua gafe. Essa amiga fica tão eufórica e te liga, sendo que você mal podia falar porque a celebridade estava do seu lado... Bem, não tão ao seu lado porque o seu marido estava interposto no assento entre você e o ídolo da Bossa Nova. O marido é um personagem citado somente agora pelo fato de ter ficado em silêncio durante todo o intercurso da amnésia de sua esposa. Um companheiro de olhos arregalados com aquela situação inusitada e demonstrando que nem sabia quem era "o tal do Edu Lobo' [sic]. Preferiu ficar mudo, só observando os ataques de mico, um atrás do outro. Tadinho... Mas, continuando, você jamais imaginaria que um ídolo da geração anos 60 estaria viajando pela companhia aérea webjet! Sim, porque a webjet são para os passageiros da categoria de base, como eu, que preferem economizar algumas centenas de dinheiro indo por ela a ter que pagar fortuna pela TAM, o primeiro escalão da aviação civil. Edu Lobo faz parte da "diretoria", meu caro! Ele poderia se dar ao luxo de uma TAM, sem o menor problema. Rarara! Tudo isso acho me faz rir das mancadas no avião que saiu de Confins no dia 15 de julho, numa manhã ensolarada de inverno em BH e aterrissar 40 minutos depois na Cidade Maravilhosa estupidamente gelada, com chuva e nevoeiro... Ah, e só para justificar que esse post merece ser intitulado de  Samba do Avião, a digníssima empresa aérea webjet (ou webjegue para os usurários mais revoltados) não despachou as bagagens dos 140 passageiros à bordo. Só ficamos sabendo disso no aeroporto Santos Dumont, quando chamados para nos dirigirmos ao balcão de informações. Por sobrecarga de peso, a empresa preferiu deixar as bagagens em Belo Horizonte, sem comunicar a ninguém, e nos mandou pra cá, sem lenço nem documento (ah, mas isso é Tropicália, não é Bossa Nova)! Então você vê um ídolo de várias gerações quase perdendo a compostura por não ter sua mala junto consigo e pensa: os mitos deveriam permanecer sempre no Olimpo, são deuses, não deveriam se zangar, esbravejar, ser um humano qualquer. Ainda bem que a minha amiga Laura não estava aqui para ver isso. É melhor que Edu Lobo continue, em seu imaginário de fã, ocupando um lugar ao lado de Zeus! E a chuva continua na Cidade Maravilhosa...


Edu Lobo