sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pedra Flor Espinho

Não necessariamente nesta ordem...


Sabe aquele ano em que você fica contando os milésimos de segundo para terminar logo? Pois é, esse ano é 2012. Disseram os maias que ele acabaria no dia 21 deste mês, entretanto, cá estou  eu escrevendo e cronometrando as horas finais para o semestre mais difícil e doloroso, quiçá, da minha vida!

Perder faz parte do jogo. Neste ano eu tive muitas perdas. Perdas físicas, perdas emocionais, perdi pessoas para os desentendimentos e equívocos, perdi pessoas para Deus. Passei por algumas cirurgias, quase fiquei sem meu dedo do pé. Até parece soar engraçado, mas é verdade. Em março, aconteceu a primeira e mais dolorosa intervenção: arrancaram minha unha pela raiz. Motivo: barbeiragem da pedicure. Resultado: hospital, anestesia, cirurgião e um quase mutilamento. Veio maio e, mais uma vez, me arrancaram algo: um dente! Motivo: barbeiragem de vários dentistas que não souberam diagnosticar uma fratura externa. Somente um iluminado profissional da área de buco-maxilo foi capaz de desconfiar do acontecido. Como esse dente foi fraturado? Vai saber, né. De cadeira em cadeira, até canal fizeram no tal dente. Inútil. Me arrumaram só mais um problema - fazer canal em um dente perdido por uma rachadura não vista a olho nu. Somente uma tomografia a identificou. Após a extração do segundo molar e meses de idas intermináveis ao dentista, o problema foi resolvido com um implante. Dentistas me causam pânico. Será por quê?


Com a chegada do inverno, sentimos o efeito gelado das relações findas. E assistimos, entristecidos, um casal muito próximo se separar. A dor é fria. Corta como gelo. Choramos, lamentamos e seguimos para julho divididos entre a tristeza de uma separação e a alegria das celebrações de formatura na família. Em meio a cerimônias e bailes, minha mãe teve uma crise de labirintite ao se levantar de madrugada para beber água e se estabacar no chão, batendo com a cabeça e ficando desacordada, inconsciente. Saiu de casa naquela madrugada fria, levada ao pronto socorro pelo SAMU, no dia 10 daquele mês. No mesmo dia em que a minha irmã começaria seu ritual de conclusão do curso de Direito. Noites longas passei ao lado dela, sentada em uma cadeira improvisada para acompanhantes. Minha mãe não sabia onde estava e nem o que havia acontecido. Falava enrolado, não reconhecia as pessoas, não queria ficar no hospital. E julho não foi o meu mês de férias escolares...

Sempre quis ter o poder de dar um salto no tempo. Especialmente, gostaria de ter plenos poderes para tirar agosto do calendário. Sei lá, acelerar a máquina do tempo, mudar o mês de nome. Enfim, eu e minhas superstições. Já no dia primeiro, minha tia fez aniversário. A mãe da Luciana e da Juliana, minhas primas queridas. Oba, pensei, pelo menos em agosto há muitos aniversários! No dia 15, minha avó completou 87 anos. Gracinha demais, muito fofa. Fiz uma postagem, compartilhei no Facebook, depois li pra ela todas as mensagens que as pessoas deixaram. Vovó ficou alegre, sem entender, portanto, essa tal de internet. Já nos finalmentes, faltando apenas um dia para agosto chegar ao fim, morre a Síglia, minha cunhada. Doce Síglia, que saudade... Agosto continuará sendo, indefectivelmente para mim, o mês do desgosto.


Beto Guedes imortalizou o nono mês do ano com a sua melódica "Quando entrar setembro..." Uma canção de encher os ouvidos. E como eu gosto de setembro, o mês da primavera, flores, frio chegando ao fim, ah! doce setembro. Sem entrar em detalhes, posso apenas dizer que fiz minha terceira cirurgia. Maior e mais delicada do que as anteriores. Fiquei um mês de licença médica, tive uma excelente recuperação, livrei-me de um problema que há anos me atormentava. Passei setembro em contemplação: pela sacada do apartamento, observava as árvores da rua em início de floração, a jardineira abarrotada de flores, o céu de um profundo azul-turquesa. Foi o mês do repouso, perfeito para guardar as energias que seriam gastas em outubro. E que outubro!


Um raio é capaz de cair duas vezes no mesmo lugar, sim. E não foi que, mais uma vez, tive minha unha do pé infeccionada? Não só a do pé direito, mas o do esquerdo também. Dessa vez dei o grito. Exigi que o salão pagasse pelo tratamento. E fiquei por mais de 30 dias indo à podóloga para não ter que voltar ao hospital. Um tratamento mais demorado e caro, porém, bastante eficiente.   Depois disso, faço eu mesma as unhas dos meus pés. Chega! Ninguém merece! Nesse meio tempo, minha avó começou a demonstrar sinais de que sua saúde estava debilitada. Logo ela, que nunca soube na vida o que é ter uma dor de cabeça. Passou por uma bateria de exames e relatório médico  diagnosticou uma neoplasia intestinal. A palavra neoplasia não mudaria e nem amenizaria as consequências da doença. Não mudaria o fim desta história...












A gente nunca acredita que as coisas que acontecem com os outros possam acontecer conosco. E, pela primeira vez na minha vida, eu estava diante da possibilidade de perder alguém da minha família. Pessoa do primeiro escalão, do time de estrelas. Que reboliço foram os dias de novembro. A notícia se espalhou e os parentes iam, em doses homeopáticas, visitar minha avó. Era um ritual de despedida. Além dela mesma, que acreditava numa cura, cuja fé era inabalável, ninguém mais conseguia, por mais que tentasse, pensar que a situação fosse revertida. Aos 87 anos, parecia algo impossível. Não para Deus, porém... Encarar a verdade dos fatos é muito difícil. Os médicos foram taxativos - a cirurgia é de risco. Não fazê-la, porém, será fatal! Chorei. Choramos. Ela também chorou. Na manhã do dia 18, eu, Luciana e minha tia Aparecida, a filha mais velha da minha avó, saímos com ela para interná-la no Hospital das Clínicas. Ao entrar no carro, virou-se para seu companheiro e disse - "Eu volto". Em 20 de novembro, foi submetida a uma cirurgia para a retirada do tumor. No dia 27, meu pai, o filho do meio, completou 65 anos. E novembro chegou ao fim. E minha avó continuava no CTI, lutando pela vida.


Tristes e aflitos, iniciamos o mês de dezembro em peregrinação. Íamos visitá-la no hospital,  nos revezando diariamente. Saíamos durante o expediente de trabalho, autorizados pelos nossos chefes, para não deixá-la sozinha no único horário em que visitas eram permitidas - às 16 horas. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que dezembro, várias pessoas fazem aniversário na família - Bruna, Matheus, meu avô. E o medo de que uma data dessa ficasse marcada pela partida da nossa amada vozinha. Mas ela esperou pelo dia de Nossa Senhora Imaculada Conceição. Foi num sábado, feriado. Telefone tocou às 7 da manhã. Pulei da cama. Humberto já havia atendido. Eu já sabia. Confirmou-se a notícia. Minha avó não resistira. Também não se entregou facilmente. Forte e guerreira. Recebeu todas as honras em sua cerimônia de despedida. Meu avô dava sinais de que não iria aguentar tanta dor. Ele penteou os cabelos dela, seus brancos e lisos cabelos. Lamentou por não ter sido ele a morrer e desejou ter ido junto. Chorou e o seu choro comoveu a todos. 70 anos de união e meu avô acreditando que sua esposa estava ali, sentindo frio e fome. E, no fim, na hora do último adeus, ele disse aquelas palavras: "Vai com Deus". 


Hoje faz 20 dias que estamos sem ela. Dezembro ainda não terminou.












Final do tratamento com a podóloga. Me perguntaram se era piercing no pé. Não, chama-se button ortodôntico e tem o objetivo de levantar a unha e ajudar no crescimento da parte que foi arrancada.   Eu que achava o número 12 o meu número da sorte... Ah, 2012!