quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Mulheres Que Amam Demais

Recentemente assisti ao filme Divã e fiquei muito comovida com a história das personagens femininas Mercedes (Lilia Cabral) e Mônica (Alexandra Richter). Cada uma amando a seu modo, nos traz reminiscências do amor que uma mulher é capaz de sentir por um homem. Se você pretende ver o longa, não leia este post, pois vou contar o final.


O filme é apenas pano de fundo, ou uma cortina de fumaça, para o que eu pensei em escrever. Há muito tempo lidando com ficção e realidade, venho analisando o papel da mulher nas histórias de amor. É mister lembrar que os grandes sucessos da literatura nacional e universal destinam um papel trágico ao dito sexo frágil.


Comecemos pelo livro sagrado dos cristãos - a Bíblia. Eva foi a culpada pela queda da humanidade. Por causa de Eva, o paraíso não nos pertence mais. Por causa dela, Adão foi castigado e seus descendentes, condenados ao sofrimento aqui na terra. Isso para citar fatos longínquos. Eva amou seu Adão. E morreu.


Séculos depois, para dar um salto significativo na História, nos deparamos com o suicídio de Julieta. O amor impossível. O amor idealizado que só sobrevive no nosso imaginário porque não foi vivido. Julieta amou demais. E morreu.


Alguma boa história conta sobre casais que foram felizes para sempre? Ah, sim, os Contos de Fadas. Porém, antes de encontrarem seus príncipes, Branca de Neve e Bela Adormecida caíram no "sono da morte". Foram "ressuscitadas" pelo beijo dos belos, másculos e heroicos filhos do rei. Branca de Neve e a Bela Adormecida morreram mesmo antes de amar.


Falando em Rei, sabem da história de Henrique VIII? Ele anulou seu casamento com Catarina de Aragão, que não lhe deu filhos, para se casar com Ana Bolena. Como a Santa Igreja de Roma não lhe concedera a anulação, Sua Majestade criou a Igreja Anglicana na Inglaterra do século XVI. Depois de desposar a amante, mandou-a para a guilhotina por acreditar estar sendo traído. Ana Bolena, uma mulher que amou demais! E morreu.


Vieram então, os romancistas Eça de Queiroz, português, José de Alencar e Machado de Assis, brasileiros. Escreveram lindas histórias. Mataram todas as mulheres destas lindas histórias.

Com Eça, morre Luísa. Ela, casada, se apaixona por seu primo Basílio. A culpa lhe corrói a saúde, a chantagem da empregada Juliana, querendo entregar a traição para o patrão, também ajuda a selar o triste destino da frágil moça. Luísa, uma mulher que amou demais! E morreu.

Em um outro livro de Eça, o padre Amaro, que seduzido pela jovem Amélia cai em tentação, não é punido. Mas a jovem falece no parto, ao dar a luz ao filho do clérigo. Amélia amou demais. Amélia morreu.

José de Alencar não se contentou em matar somente a índia Iracema, que se relacionou com um homem branco. Ela também matou Lucíola, a prostituta. Tudo pela moralidade. Homens castos, castrados, eunucos. Coisas da época, entendo. Iracema e Lucíola viveram amores impossíveis aos olhos da sociedade. Iracema e Lucíola, mulheres que amaram demais. E morreram.


Ah, mas nenhuma morte se iguala a de Capitu. Linda Capitu, olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Oh, Bentinho, por que "mataste" Capitolina? Seu ciúme a aniquilou, doentio Bento Santiago. Isolada na Europa, sem o filho e sem o seu grande amor da infância, definhou até a morte. Capitu amou Bentinho. Bentinho matou Capitu. Uma mulher que amou demais. E morreu.

E o que dizer de Diadorim? Guimarães Rosa, inteligente, sagaz, criou o personagem feminino mais masculino de todos os tempos. Acho que o primeiro travesti da literatura nacional. Talvez o único. Diadorim amava Riobaldo que amava Diadorim, mas não aceitava porque Diadorim se vestia e se comportava e se dizia homem. Um amor homossexual? Loucuras de Rosa, beleza de amor! Não poderia faltar o trágico fim - morra, Diadorim, morra! Você é uma mulher, lembra? Uma mulher que amou demais. E morreu.

Falando de coisa séria, de morte morrida de verdade. Quem já ouviu falar de Frida Kahlo? A pintora mexicana que se casou com o muralista Diego Rivera. E que amou loucamente este homem, que foi traída inúmeras vezes por este mesmo homem, até mesmo pela sua própria irmã. Frida que tinha saúde frágil, que fora aluna de Diego, que não conseguiu lhe dar um filho. Frida que morreu de amor. Frida Kahlo, uma mulher que amou demais. E morreu.


Edith Piaf, a cantora francesa. Miúda, fraca de saúde, uma voz incomparável, absurdamente inclassificável! Edith amou somente uma vez na vida. O lutador de boxe Marcel Cerdan. Um homem casado. O único e verdadeiro amor de Piaf. Ao partir para encontrar sua amante em Paris, tem precocemente uma morte trágica. O avião em que seguia caiu e deixou Edith Piaf enlouquecida e fraca, muito fraca. Piaf, morta aos 48 anos, dependente de morfina por causa do reumatismo e por causa da dor de perder o seu grande amor. Edith Piaf, uma mulher que amou demais. E morreu.

Poderia falar de Maísa, Elis Regina, Cássia Eller... Mas delas, falarei em outra oportunidade. Sim, porque o amor mata, mas a falta dele também.

Voltando ao Divã - Mercedes se separa do marido em busca de novos amores. Termina sozinha. Feliz? Talvez. Mônica, apaixonadíssima pelo marido. Vivia o marido, respirava o marido. Mônica morreu de câncer. Mônica, uma mulher que amou demais. E morreu.



E você, amiga! Ama demais? Cuidado, a morte pode ser seu fim. Ou sua redenção!
Um homem nunca vai entender o amor de uma mulher.



[texto - Christiane Bianchi]


Sugestões de filmes relacionados

  • Divã
  • Romeu e Julieta (qualquer versão)
  • Tristão e Isolda
  • A Outra (historia de Ana Bolena)
  • Primo Basílio
  • O crime do padre Amaro
  • Capitu (minissérie)
  • Frida
  • Piaf