sábado, 13 de março de 2010

Você tem fome de quê? Eu tenho de Justiça.

"O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer."
                                                                                                                                            Albert Einstein

Este texto é para aquelas pessoas que não perderam a capacidade de se indignar diante daquilo a que chamamos de inversão de valores. Obviamente, tal fato gera a impunidade, perplexidade e alguma incapacidade de ação. Só o que não se pode perder é a dignidade.

Não é preciso ser gênio como Einstein para proferir palavras tão sábias. Mas é preciso ser gênio para captá-las e colocar suas ideias em prática. Estamos na era do tudo-pode-nada-acontece. Nos acostumamos a ouvir impropérios das pessoas as quais jamais imaginaríamos, como por exemplo, filho xingando mãe (ou pai), ou até os agredindo fisicamente. Os filhos hoje, na grande maioria das famílias, ditam as regras. Quero o tênis tal, a "the shirt" da marca tal, o relógio, a mochila, o jeans com uma etiqueta enorme escrito Colcci, nem que seja comprada no shopping Oi. E muitos pais sucubem aos desejos tiranos de suas crias, pois a geração de pais  atual sente-se culpada por não dar atenção necessárias aos seus rebentos, uma vez que eles precisam se ausentar para pôr comida dentro de casa, pagar contas, ter uma vida classe média legal. Ah, e pagar as grifes dos seus filhos.

Como se isso não bastasse, essa geração... que geração é essa mesmo? Na minha época Renato Russo batizou-a de geração Coca-Cola. Ah, mas isso é decadance, avec elegance. Claro que existe um rótulo mais moderno para essa garotada de hoje, mas não sei. Sinceramente, não sei. Porque aqui em casa quem ainda dita as regras somos eu e meu marido. Também nossos filhos não nos exigem muito. Apenas que os deixem passar horas diante do computador com uns benditos joguinhos que nunca têm fim. Fora isso, tudo tranquilo. Caso excedam, uma bronquinha resolve. Mas hoje tem pai e mãe indo parar na delegacia com filho de doze anos. Isso mesmo, queridos leitores, 12 anos de idade. Uma década + um biênio. Mal saído das fraldas, ainda cheirando à leite.

Quem trabalha em escola sabe do que estou falando. Afinal, o lugar é um reduto da criançada e da moçada moderna. Assim como os pais desta geração, nos tornamos professores permissivos demais. Sabe por quê? Porque se hoje nós chamamos a atenção de um aluno por um motivo justo, como não fazer o dever de casa, chamar o coleguinha de macaco, trocar socos e pontapés em sala de aula como se ali fosse um campo de batalha, vêm papai e mamãe dizer que irão nos denunciar. Que estamos maltratando a criança, que nesta idade é comum ter brigas e chamar o coleguinha de símio nada mais é do que uma brincadeirinha, "que maldade há nisso?", indagam. Costumo dizer para esses pais - não há nada demais, mas os senhores já leram a Constituição? Sabem que é a isso se dá o nome de racismo e que é crime? Mas antes de ser crime inafiançável, é uma questão de falta de educação, faltou o senhor e a senhora, queridos pais, ensinarem a prática do respeito ao próximo. Só isso.

E como tem sempre aquela turma do deixa-disso, a situação se agrava a cada dia. Vivi na pele a péssima experiência de ser agredida fisicamente por um aluno, no ano passado. Passei por momentos de muita dor e muita revolta. Em alguns momentos temos que tomar consciência de que a palavra "coletivo" é muito bonita, mas pouco praticada. Raras são as pessoas que se expõem para ajudar nestas horas. No meu caso, a polícia me ajudou. Mas ficou por isso mesmo. E ainda levei fama de intransigente. "Ele é apenas um garoto de 11 anos com problemas psíquicos." Ah, tá. Então tão bom, né...

Quando pensei que o caso já estava dado por encerrado, não é que na semana passada o mesmo aluno agrediu outra professora? Me vieram todas aquelas terríveis sensações pelas quais já havia passado. Fiquei comovida ao ver minha colega de trabalho chorando por ter levado um tapa do mesmo aluno que ano passado me agrediu. E desta vez vi algo que me causou um espanto positivo. Muitas colegas estavam do lado da professora agredida, dando apoio a ela. Colegas que não perderam a capacidade de se indignar com a violência, hoje tão banalizada. Estas colegas de profissão seguiram a frase de Einstein e não deixaram o mal acontecer. Não ficaram só na plateia, foram para o palco e juntas fizeram o que todos deviam fazer - ter a capacidade de ficar perplexo diante de um fato como esse.

Para variar, a mãe culpou a escola, às professoras ela disse que são todas incompetentes e o caso foi parar na delegacia. Muito correta a atitude da nossa colega agredida. Não é um ato de coragem, como muitos pensam, é um ato justo. Quem mais pode estar do nosso lado senão a justiça? A que meios podemos recorrer para denunciar os maus tratos sofridos por professores? Para a maioria da população somos profissionais privilegiados, porque trabalhamos "meio horário" (desconhecem que muitos têm jornada dupla ou até mesmo tripla) e que além disso temos duas férias por ano. Não. Não são duas férias. Como todo trabalhador regimentado pela lei, temos 30 dias de férias corridos no mês de janeiro e 15 dias de recesso no mês de julho. Para efeito de salário, somente recebemos uma vez pelo benefício, como todo mundo que trabalha de carteira assinada (ou não, pois sou funcionária pública e nosso regime é outro). Portanto, leigos no assunto, parem de dizer que somos privilegiados pois NÃO somos.

Se você hoje é um profissional com título de graduado, pós, o escambal, é porque teve vários professores na sua vida. Certamente, você que chegou até lá passou em média um século dentro de uma instituição de ensino. Nós, educadores, somos a base da construção de uma sociedade, depois da família. . Foi na escola que você aprendeu que não pode bater no coleguinha, pegar o lanche do amiguinho sem pedir, encapar os cadernos e os livros, etiquetá-los, ser organizado com suas coisas, seus trecos. Tudo começa lá e hoje ainda mais cedo, no berçário. E para piorar a nossa situação, tem a imprensa escrita e falada para ir contra a nossa classe. Se uma professora perde a cabeça e revida o tapa num aluno desse, vai presa, algemada, com risco de ser linchada na porta da escola. Quando o contrário acontece vem o Conselho Tutelar, os representantes do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o jornal Super, Aqui, Extra e todos aqueles de bom e péssimo nível. Vem o jornalista dizer que a criança é vítima da sociedade violenta, que os professores precisam ter mais paciência. Paciência? Façam-me o favor! Convido a quem quiser passar um dia na escola junto comigo em sala de aula. Depois tirem suas próprias conclusões. E parem de dizer asneiras sobre o que não conhecem de risco e de fato.

O caso da criança agressora ainda vai render muito. Desde o ocorrido, não tivemos mais a presença do aluno na escola. Mas certamente os trâmites legais que protegem o infante estão correndo. Enquanto isso, quem poderá nos defender? Chapolin Colorado? Não. Ao contrário, vamos nos defender adquirindo consciência de que temos que nos indignar com fatos feito esse. Termino esse longo texto com mais uma frase do grande cientista, Albert Einstein:


"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que diz respeito ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta."


Dedico este texto para minha amiga, cujo nome não vou citar para protegê-la. A você, querida, todo o meu apoio. Fique bem.

Christiane B.