quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Jabor e a Tragédia na Kiss

O cara é marrento, pedante, anti-pobre, anti-esquerda e antipático! Mas... sabe fazer um artigo como poucos! Fala o que vem na cabeça e não poupa ninguém. A seguir, trechos de sua crônica a respeito do desastre na boate Kiss, em Santa Maria, no mês de janeiro. É longo, porém, vale ser lido até o fim


Caríssimos

O holocausto de Santa Maria, ao contrário do que apregoam os babacas da subjetividade, não foi a vitória do Imprevisto sobre a Previsibilidade, nem a derrota da Precaução pelo Infortúnio. Foi, sim, a sobreposição da Idiotice sobre o Bom Senso e o triunfo da Ganância sobre a Burocracia.

Primeiro, a Idiotice se fez carne e habitou entre nós. Uma das tarefas mais simples de ser realizada é disseminar a Idiotice. Se vocês, caros putzeiros, olharem ao redor verão exemplos disso em cada esquina, em cada discurso de político, em cada propaganda de cosmético. Já assistiram um desfile de moda? São mulheres anoréxicas caminhando feito saracuras sequeladas de AVC, vestindo roupas desenhadas por bichas loucas que não seriam usadas nem por outras bichas mais loucas. Já viram o tal carnaval baiano? São milhares de retardados perseguindo, em ruas apinhadas de seus pares, caminhões carregados de pagodeiros ou seja lá quem forem, distribuindo milhares de decibéis, todos com o único objetivo de ficar bêbados o mais cedo possível e depois da ressaca dizerem que foi o carnaval mais arretado do milênio. Igual a espetáculo de rock: mais milhares de idiotas movidos a canabis e outras cositas, pulando feito jumentos com buscapés nos rabos, ao som de uma cacofonia infernal produzida por seis ou sete dementes com o uso de quatro acordes, que eles têm o desplante de chamar de música. Todo esse conjunto de estupidezes tem um único objetivo: convencer as pessoas que o que é moda é o melhor para elas, e que ’’estar por dentro’’ é a suprema felicidade, enquanto eles, os promotores da estupidez, forram a guaiaca com a grana dos felizes consumidores.

E aí chegamos nas baladas.A balada contemporânea não é apresentada em ambiente de câmara, mas numa edificação chamada boate ou casa noturna, construída segundo os mais modernos conceitos de insalubridade. Normalmente as paredes são pintadas de negro, dando o clima dark, apreciado por onze entre cada dez frequentadores descerebrados. Embora a lei proíba o uso de cigarros e assemelhados no seu interior, ambos são consumidos, na proporção de dez assemelhados para cada cigarro. Caramelos contendo anfetaminas, ecstasy e outros estupefacientes são oferecidos à clientela. Para evitar as reclamações da vizinhança pelo ruído produzido, as paredes são forradas de espuma de borracha sintética recobertas de papelão, tudo altamente inflamável, como se recomenda a um bom inferninho. Luz, há pouca. Apenas canhões de laser e alguns spots coloridos, alternando-se com flashes como os de fotografia, que disparam continuamente, de modo a ninguém perceber pela visão o que se passa a um metro do próprio nariz. Às vezes, para delírio de todos, o contínuo espocar dos flashes dispara um gatilho neurológico provocando uma convulsão epiléptica num dos baladeiros. Um outro artefato chamado Sputnik é responsável por uma imitação de fogo de artifício, produzindo faíscas altamente recomendáveis num ambiente inflamável. O tal Sputnik é uma espécie de morteiro que dispara acionado por uma faísca elétrica uma mistura de pólvora com areia refratária, atingindo a temperatura de até 3.000 graus centígrados. Levem em consideração que a platina funde a 1.750 graus e o carbono a 3.485, e verão a potência destrutiva do artefato usado por brincadeirinha.

O encarregado do barulho é um profissional altamente valorizado, conhecido pelas iniciais DJ. Nenhum dos frequentadores sabe o significado da sigla, mas todos sabem a função do DJ – produzir decibéis em quantidades amazônicas, de modo a saturar a audição dos prezados frequentadores e impedir qualquer tentativa de comunicação através da palavra. No mister de fazer barulho, conjuntos pseudomusicais chamados bandas apresentam-se quando o DJ vai esvaziar o joelho ou descolar um baseado nas coxias. Como sói acontecer, tais bandas escondem sua absoluta falta de talento entoando a milhão músicas que ofenderiam a inteligência de uma marmota com tumor cerebral e apresentando efeitos luminosos e pirotécnicos que desviam a atenção de sua infeliz parafernália cacofônica.

A segurança dos inferninhos é feita por uns caras enormes, vestidos de preto, alguns usando óculos de sol às três da matina. São ex-policiais normalmente expulsos das corporações, ex-presidiários ou lutadores de qualquer coisa. Sua função é a segurança, quer dizer, é segurar os consumidores que pretendem escafeder-se sem pagar a conta (que aqui chamam de comanda). Por isso, as casas noturnas têm uma só saída, que é também a entrada, quando todas as legislações municipais obrigam a existência de saídas de emergência. Algumas chegam a ter uma sala para onde os fujões são levados e obrigados a pagar a conta na base da porrada ou coisa pior.

Proprietários de casa noturnas são uns caras da pior espécie. Como os banqueiros (de banco ou de bicho), seu negócio é ganhar dinheiro fácil e rápido, o que significa investir pouco e aplicar na bolsa (na bolsa dos outros, é claro). Investir pouco quer dizer pagar barato por materiais de terceira categoria e burlar ou comprar a fiscalização. Por isso, o revestimento da Kiss era de papelão e espuma de poliuretano, muitíssimo mais barato, por exemplo, do que o isolamento termoacústico não inflamável baseado em nanotecnologia. E revisar periodicamente os extintores de incêndio, nem pensar. Assim, a Ganância triunfou sobre a Burocracia. A espuma de poliuretano, quando queimada, libera uma mistura letal de cianetos, ácido clorídrico e monóxido de carbono. Nem os executores de Auschwitz fariam melhor.

A mesma ganância impulsiona os donos dessas arapucas a admitirem a entrada de quantas pessoas couberem no recinto. No caso da Kiss, a boate tinha uma área de 615 m2. E, segundo as estimativas havia no seu interior entre 1.500 e 2.000 pessoas. Façam a conta, por baixo: 615:1500 = 0,41, ou seja, cada pessoa dispunha de 0,41m2 para “divertir-se”. Quer dizer um quadrado de 64 cm de lado!!! Se fossem 2.000 pessoas, o quadrado baixaria para 55 cm de lado. Longe de mim criminalizar as vítimas, mas, pelas barbas do Profeta, o que leva alguém a frequentar um lugar onde dispõe de menos de meio metro quadrado, no escuro, sem poder falar, ter a audição lesionada por decibéis incontáveis, sem saída de emergência, respirando ar viciado e pagando 15 reais pela vagabunda e quente cerveja nacional?

A consumação da tragédia deu-se por mais um ato de idiotice sem precedentes: acender um sinalizador num ambiente fechado. O resultado final foi o que se viu.

Arnaldo Jabor

Texto mandado por Humberto via e-mail.