quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mateus Solano

"Pelas contas do rosário! Será que eu salguei a Santa Ceia?"


"Mami poderosa e Papi soberano". É assim que Mateus Solano, ou melhor, Félix, o personagem master deste talentoso e promissor ator global, se refere à Pilar (Suzana Vieira) e César (Antônio Fagundes), seus pais na bombástica novela Amor à Vida, uma novela com crase (vem aí um post sobre isso). Há muito tenho tido vontade de falar sobre esse personagem tão intenso e controverso como o Félix, um vilão do qual não conseguimos ter raiva. Decerto, ele desperta a ira de muitos telespectadores, principalmente quando faz piadas de cunho religioso ou quando chama sua secretária de cadela. Porém, a maneira como Mateus construiu a personalidade de Félix, faz-nos enxergar para além de suas maldades - Félix é humano dentro de sua desumanidade, da sua falta de caráter e de escrúpulos. Vemos isso claramente quando se sente rejeitado pelo pai. Entretanto, Félix é inoportuno, interesseiro, ciumento, narcisista, manipulador, egocêntrico e dissimulado. O "e" não encerra por aqui os inúmeros defeitos do galã malvado, todavia, não se faz necessário desfilar uma carreira de adjetivos para qualificá-lo ou, no caso, desqualificá-lo.

Quando Walcyr Carrasco deu vida ao Félix, ele projetava um vilão atípico: um homossexual sem caráter. Até então nada a respeito tinha sido mostrado em horário nobre, no campo das relações minadas e dos temas polêmicos que o próprio autor, gay assumido, se propôs a debater. Se não fosse o talento indiscutível de Mateus Solano, acredito que Félix cairia naquilo que se chama, no jargão televisivo, de personagem caricato. Quando eu o vejo em cena, esqueço-me da falta de caratismo dele e me deslumbro com a capacidade de interpretação de Mateus! Sua atuação é simplesmente perfeita, a tonalidade de sua voz, os trejeitos, a ironia do olhar, o sorriso debochado e as tiradas indefectíveis que lhe renderam uma página no facebook com quase dois milhões de seguidores. Os internautas não curtem a fan page por achar que Félix é um exemplo de pessoa ou por admirar suas atitudes. Eles curtem porque Félix é diferente de tudo o que já foi mostrado em termos de vilania nas telenovelas. O Crodoaldo Valério, de Marcelo Serrado, era igualmente engraçado, mas era bonzinho e, além disso, secundário na trama de Aguinaldo Silva. Dizem que Carminha foi uma das melhores vilãs dos últimos tempos, embora eu deva ser a única que discorde disso. Adriana Esteves fez um único papel de sucesso: a Catarina de O Cravo e a Rosa, que, inclusive, está no Vale a Pena Ver de Novo. E vale mesmo! Eu detestava a Carminha, aquela gritaria toda, eu detestava e não assisti Avenida Brasil... Mas, enfim, sou minoria e minoria não conta! Só que, nem Crô e nem Carminha chegam aos dedinhos dos pés de Félix Khoury!

Ainda a respeito da criação do personagem, se buscarmos a etimologia da palavra Félix encontraremos, vindo do Latim, a sinonímia feliz. Feliz - alegre. Alegre - gay em inglês. Não por acaso, Walcyr escolheu esse nome para Mateus Solano. E o que dizer de Pilar? A sustentação da família, a base, o concreto. E se formos pensar em César? Vêm à minha cabeça o nome do imperador romano Caio César, um grande político e administrador, o papi homofóbico e soberano de Félix. Eu poderia escrever sobre isso e me perder no texto, pois é sabido que os autores, via de regra, tanto na literatura quando na teledramaturgia, pesquisam bastante sobre a personalidade de seus personagens e lhe imprimem nomes adequados. Claro que isso não é uma regra rígida, porém, bons escritores fazem isso. Como diria meu ex-professor de literatura brasileira: "Vocês sabem por que Machado colocou o nome de Capitu? Pois bem, não sabem, vamos lá - captura, capitólio, captar... E sabem por que o amigo traidor de Bento Santiago (santo e pecador - Iago de Otelo) chamava-se Escobar? Porque Escobar é (quase) um anagrama de cobra e a palavra é sibilante como uma serpente traiçoeira - Essssssssssscobar. O que traiu o amigo." Nunca me esqueci desta aula, do seminário sobre a inocência ou culpa de Capitu e da loucura que esse professor tinha pela obra Dom Casmurro.

Em comparação com Mateus Solano, não é com igual admiração que vejo Walcyr Carrasco. Aliás, quando a novela passou do centésimo capítulo, tornou-se insuportável de assistir. Tramas paralelas sem sentido, personagens que ficam dias sem aparecer, exagero de Elisabeth Savalla e Tatá Werneck que começou tão bem! E aquela Aline, que nojo! Mulher abominável, debochada, sem caráter e sem o carisma de Félix. Nem engraçada ela consegue ser, não tem empatia com o público. É a vilã tradicional - destila maldade e só. Mesmo assim, apesar de claudicante e mantendo bons índices de audiência, gosto de ver Félix em cena, gosto também do Eron-sempre-lindo-Marcelo-Antony, admiro Bruna Linzmayer e sua naturalidade para interpretar uma autista, a Linda. Tenho uma aluna autista, chama-se Luíza e Linda me emociona, assim como Luíza me ensina diariamente. Concluo que, de certa forma, ainda há algo de bom para se assistir em Amor à Vida. Nem que seja por esses que citei. Nem que seja para ver Mateus purpurinando e tornando nossas noites mais descontraídas, porque,  "pelas contas do rosário", não está fácil pra ninguém!

Christiane Bianchi